A dor é quadrada ou circular

 

Quem assistiu ao filme “Como água para chocolate” deve-se lembrar da cena em que a protagonista, tendo sublimado o amor que tinha pelo cunhado, tece uma colcha de crochê enquanto sente a dor da perda. No dia em que ela sai de casa para tentar a vida com outra pessoa, leva a colcha consigo. Nessa cena, percebe-se o tamanho da sua dor pelo comprimento que a colcha havia alcançado.

 

Durante toda a minha vida sempre tive gosto para trabalhar com artesanato e com artes..

Falo assim porque nunca sei exatamente onde o limite entre o artesanato e a arte e ninguém consegue me explicar. Mas isso não tem importância. Sei apenas que todas as coisas que fiz são essencialmente bonitas.

Quando menina, bordava, fazia bainha, pregava botão. No ginásio, aprendi crochê, tricô, crivo, ponto cruz e outras coisas que nem lembro mais. Mais tarde aprendi, sozinha, a costurar e adorava fazer algumas peças de roupa para mim e para Laninha. Cheguei nas telas e tinta a óleo e pintei mais de cem quadros. Na década de 1980, desenhava e pintava nu ao vivo.

As cores sempre me fascinaram: estranhamente elas rodopiavam na minha cabeça, combinavam as tonalidades e me estimulavam a colocá-las em algum trabalho manual. Quando tinha pressa de tirar aquela imagem de cores da memória, pegava um “saco de farinha alvejado” e rapidamente pintava um desenho no pano de prato. Arrematava com um biquinho de crochê e tudo estava resolvido. Às vezes, tricotava essas cores em uma malha de lã para o inverno. Fiz muitas. Cheguei a usar cinqüenta tonalidades de cores para uma única malha. Assim os tempos corridos iam passando enquanto os crochês, tricôs, pinturas e costuras disputavam um lugar entre os muitos afazeres domésticos, profissionais e familiares. Sempre acreditei que o tempo não nos é dado; ele é conquistado. Cavei espaço para esse lazer.

Mas um dia tudo mudou. A vida me mostrou que tem esquinas e que muda de rumo. Os dias já não eram como antes. Esqueci das coisas que me davam prazer.

Depois que a minha menina adorada se foi, fiquei como uma tonta pela casa. Não tinha ânimo e nem vontade de sair (até hoje me esforço para me divertir um pouco, mas as coisas não têm a mesma graça). Entre as várias recomendações que recebi nessa época, uma foi a de retomar a prática do trabalho manual. Foi o que fiz.

Achei que era uma atividade que podia me acalmar; não precisava sair de casa, as mãos ficavam ocupadas e a cabeça livre para pensar (atualmente, pensar é a maior ocupação que tenho: tornou-se uma necessidade constante para elaborar tudo o que aconteceu e acho que vai ser assim sempre. -

Procurei nos achados e perdidos todos os novelos de lã que tinham sido guardados e encontrei muitos e de muitas cores. Comecei a fazer pequenos quadrados vermelhos, azuis, verdes, brancos, rosas... ia depositando-os numa grande sacola de papel pardo.

A dor era quadrada. Às vezes, ficava retangular, quando se juntavam dois quadrados. Outras vezes, parecia um  “L” maiúsculo, quando se juntavam três quadrados, mas voltava a ser quadrada quando já eram quatro quadrados. A dor passava rapidamente por metamorfoses, mas voltava sempre igual, com a mesma cara, terrivelmente quadrada. Um dia a colcha ficou pronta.

E a dor terminou? 

Não.

Virou circular no tapete redondo.

A idéia de fazer crochê era um jeito de passar algumas horas do dia. Fui à procura de mais fios.

Encontrei nos armários linhas de seda e algodão, bem fininhas. E eram muitas.

Resolvi fazer um tapete. Para tanto, precisava de fios mais grossos. O cone de linha de seda era o mais fino de todos. Foi preciso juntar oito fios de seda e quatro fios de algodão para serem compatíveis entre si. Era um verdadeiro exercício de paciência: enrolava oito carretéis de seda, procurando controlar visualmente a mesma metragem de fios. Em seguida, juntava os oito fios de uma só vez em um único carretel, parando de vez em quando para reorganizar os carretéis quando embaraçavam. Repetia o mesmo procedimento com os quatro fios de algodão.

Essa tarefa de enrolar fios foi bastante trabalhosa e demorada. Quando dava problema no interior do saquinho plástico que abrigava os carretéis, aproveitava o pretexto para xingar, esbravejar, gritar. Era um jeito de desabafar!

Quem assistisse a cena, me mandaria parar com esta atividade tão estressante. Era preciso me poupar de outros problemas. Provavelmente não entenderia nada do que estava acontecendo.

Uma vez os fios organizados, comecei a fazer o tapete de crochê. Era redondo e o trabalho ia se desenvolvendo em espiral, como o corpo do caramujo.

No início, as voltas redondas eram vencidas facilmente, mas à medida que foram se distanciando do centro, os círculos aumentavam sua circunferência e gastavam mais tempo para serem concluídos.

Ficava imaginando que na vida os fatos são parecidos. No início, quando soube do acidente da Laninha, não tinha idéia exata do tamanho do buraco que eu tinha de transpor.

Fui percebendo a escuridão do buraco e a dificuldade para subir, junto com as voltas do tapete.

A dor era circular. O diâmetro aumentava.

O tapete era tecido ponto a ponto e só crescia. Cada dia que passava, demorava mais tempo para concluir o círculo.

Na verdade, o movimento em espiral não conclui o círculo.

Também na vida real, a dor não termina. No entanto, há uma diferença entre o tapete e a vida. No tapete, o fio acaba e a espiral pára de girar. Na vida, o fio conduz à dor, que também é circular e gira sem nunca parar, em espiral.

Hoje, a colcha está em Itatiba e o tapete está em São Paulo, no escritório. Não gostei deles. Ou será que não gostei da dor quadrada e circular que ficaram impregnadas neles?

Não sei responder.

Não preciso responder.

Procuro outras respostas.

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